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THE WALKING DEAD E A FILOSOFIA POLÍTICA

(PARTE I)

Imersão Cultural | 16-01-2022 23:34 | Por: Vítor Grola Castilho
Em carta aos leitores, o criador da HQ The Walking Dead, Robert Kirkman, se queixa de que o pior momento dos bons filmes é quando acabam. Teríamos de concordar que a curiosidade a respeito dos desdobramentos possíveis faz com que quanto melhor o filme... mais insuficiente! Praticamente todo o cinema de apocalipse zumbi narra o início da infestação e o momento de colapso da civilização, em outras palavras, o evento apocalíptico em si, nos deixando em branco quanto ao que acontece depois. Como os sobreviventes encontram meios para perpetuar a humanidade? A humanidade, afinal de contas, persevera ou sucumbe? Dessa forma, The Walking Dead seria a tentativa de dar um passo além. Nas palavras do próprio Kirkman, um “filme de zumbi que nunca acaba” ou um “épico de zumbis”.

Realmente, The Walking Dead tem muito de épico no sentido do antigo gênero literário. Ora, uma vez que os protagonistas resistem à ameaça zumbi e lançam os alicerces de uma nova sociedade, a saga do policial Rick Grimes e seu grupo de sobreviventes se torna a narrativa da fundação de um povo, o heroico esforço coletivo para gestar uma nova civilização, tal como a Eneida de Virgílio (70 a.C.–19 a.C.), por exemplo, que narra a saga de Enéias, mítico ancestral dos romanos, em busca de uma nova terra para seu povo após a queda de Troia. Contudo, além de um “épico de zumbis”, The Walking Dead pode ser lido como um exercício hipotético de filosofia política.

E se o mundo mergulhasse em um caos zumbi? As leis perderiam poder e a moralidade definharia, pois seu alicerce, a sociedade, com suas instituições e convenções, se desintegraria. Nesse cenário, não importa mais cidadania, classe social, prestígio ou cargo, mas apenas as habilidades que garantam meios de sobreviver. Esse momento pode ser entendido como o retorno a algo que os filósofos políticos chamaram de estado de natureza...
 
Ato I: “We are the walking dead”, do contrato social ao estado de natureza

Em miúdos, o estado de natureza seria um estágio hipotético da história humana, antes da formação das sociedades, quando o homem teria vivido como selvagem, lutando por sua sobrevivência individualmente. Trata-se de uma ficção concebida pelos filósofos políticos modernos que, recebendo notícias trazidas pelas grandes navegações, acerca de vários povos em diferentes estágios de desenvolvimento civilizacional, procuravam entender o que levaria homens dispersos a se associarem e como sua união poderia se manter segura e coesa ou ser destruída. Evidentemente que esses filósofos já bebiam da fonte dos antigos, mas aqui não caberia fazer uma história da filosofia política, retornando à República de Platão. Trata-se, antes de qualquer coisa, de um singelo convite ao vosso aprofundamento. Enfim, essa união primordial de homens selvagens seria entendida pelos filósofos modernos como um contrato social, quando os indivíduos cedem os poderes que até então tinham no estado de natureza em troca da segurança garantida pela lei e os proventos da divisão do trabalho em sociedade.

Parece complexo, mas o cálculo é bastante simples. Trocamos uma situação onde éramos todos livres, mas vivíamos sob constante risco de ter nossa liberdade tolhida pelos mais fortes, por uma nova situação onde já não podemos fazer o que quisermos, mas estamos protegidos dos abusos do outro. As liberdades a serem protegidas desses abusos eram entendidas pelos filósofos como “direitos naturais”, direitos intrínsecos a todos os seres humanos, noção essa que é a ancestral dos nossos atuais e polêmicos direitos humanos.

Para John Locke (1632–1704), esses direitos naturais seriam a vida humana, que, por ser propriedade de Deus, não poderia ser tirada por ninguém – nem o próprio ser, deslegitimando inclusive o suicídio – e a propriedade, entendida como todos os recursos obtidos pelo trabalho para a manutenção da vida e a busca do bem-estar. Atentar contra esses direitos naturais significa, por exemplo, roubar, escravizar (o escravo é privado do direito à propriedade, tornando-se ele mesmo uma propriedade) ou matar.

Os poderes cedidos após o contrato social seriam concentrados em uma instância soberana, uma liderança ou o que virá a se configurar como o Estado, aquele que deve, através do império da lei, zelar pelas liberdades e neutralizar suas ameaças. Outro filósofo político moderno é Thomas Hobbes (1588–1679), autor do famoso aforismo “o homem é o lobo do homem”. Precisamente, Hobbes faz referência ao estado de natureza, onde os indivíduos estão constantemente ameaçando uns aos outros em sua luta pela sobrevivência, até que o Estado, alegorizado pelo monstro bíblico Leviatã, impõe seu “monopólio da violência” de modo a impedir, a fórceps, que os indivíduos continuem se matando por interesses particulares.
 

Frontispício original do Leviatã de Hobbes, publicado pela primeira vez em 1651. A gravura, rica em simbologia, mostra um monarca segurando espada e báculo, respectivamente símbolos do poder temporal, ou a autoridade mundana, que emana das leis civis, e o poder espiritual, religioso, a lei divina. No corpo do monarca, uma multidão representa o contrato social. O povo cedeu seus poderes ao monarca – que poderíamos entender como o Estado –, legitimando sua autoridade, de modo que o poder real pode ser entendido como uma amalgama dos poderes de todos os cidadãos.


Pessoas vivendo em meio à selvageria, lutando pela sobrevivência, embrutecidas e em constante estado de alerta, buscando formar uma união social para sentirem-se seguras e desfrutarem de liberdades e produtos de seu trabalho... Podemos ver muitos aspectos da HQ de Kirkman se desenhando em nossa imaginação. Pois bem, é porque os personagens de The Walking Dead estão imersos no estado de natureza. Welcome to the jungle!
 

A imersão do homem civilizado em estado de natureza é um mote recorrente na cultura estadunidense, povo que, por mais de um século, esteve desbravando fronteiras e se lançando ao desconhecido do oeste e, depois, mais uma metade de século se preparando para uma iminente catástrofe nuclear – quando a Guerra Fria eventualmente se tornasse quente. São aficionados por sobrevivencialismo e experiências “into the wild”, de modo que poderíamos entender a subcultura zumbi, com todos os seus “guias de sobrevivência ao apocalipse zumbi”, como substrato, em alguma medida, dessa tradição. Nas imagens, a partir da esquerda, vemos uma pintura dos pioneiros no oeste; um guia sobrevivencialista, publicado pelo governo, preparando os cidadãos para catástrofes nucleares; o cartaz do filme de Sean Penn, Na Natureza Selvagem (2007), que conta a história verídica de um rapaz endinheirado que, após a formatura na faculdade, se lança em uma experiência de vida selvagem, no Alasca; e, por fim, um best-seller de sobrevivencialismo para apocalipses zumbis.  


No decorrer das andanças do grupo de Rick, em busca de mantimentos e lugares seguros, acompanhamos a descida por uma espiral de selvageria. O grupo encontra uma prisão com estoque de enlatados, gerador de energia, carros abastecidos, enfim, uma cornucópia de recursos, e passa a dividi-la com detentos que lá estavam sobrevivendo. Assassinatos acontecem e Rick restitui a antiga lei de Talião (lembrando: “olho por olho, dente por dente”), proclamando: “quem mata, morre”. O assassino é enforcado em frente aos demais, para servir de exemplo. Outro detento se revolta por ter sido acusado injustamente e, com medo de uma retaliação, Rick o mata preventivamente. Em seguida, uma comunidade rival ataca a prisão para tomar seus gordos recursos, levando a um enorme massacre que varre metade do grupo de Rick. Gravemente ferido, o protagonista foge com seu filho, Carl. Num determinado momento, crendo que o pai ferido havia se transformado em zumbi, o garoto lhe aponta a arma na chocante cena que talvez seja o ponto mais profundo do estado de natureza a que The Walking Dead chega. O mundo é a grande trincheira da “guerra de todos contra todos” de Hobbes, não se pode baixar a guarda, nem contra seu próprio pai, e isso faz os seres humanos recuarem a um modo de instinto. Quase como se eles próprios fossem... os zumbis.
 

O personagem Morgan Jones no início da HQ e depois de um tempo... andando só. Interessante notar a fisionomia de um verdadeiro zumbi na segunda aparição. Essa identificação entre personagens e mortos-vivos é amplamente explorada por Kirkman e brilhantemente representada pelo desenhista, Charlie Adlard. “We are the walking dead!”, proclamou Rick no discurso da prisão, auge da selvageria: matar ou morrer, eis a questão.


Querendo elevar o conceito da obra, Kirkman nos diz, em sua primeira carta aos leitores, que o objetivo de The Walking Dead não é ser mais um show de horrores e sustos, mas explorar os conflitos entre os próprios vivos e a influência das situações extremas em seu comportamento, tencionando-os aos limites de sua humanidade. Até onde essas pessoas vão em sua luta pela sobrevivência? O impacto psicológico sobre pessoas até então adaptadas à civilização, lançadas bruscamente nesse contexto de selvageria, é uma das linhas mestras da narrativa. Vemos cidadãos comuns sendo forçados a matar zumbis para fugir da morte, então começam a assassinar outras pessoas que os ameaçam e, por fim, membros do próprio grupo que perdem a cabeça e se tornam perigosos, pessoas com quem até então andavam compartilhando felicidades e sofrimentos. Vemos esses cidadãos comuns se tornando assassinos, sempre andando na corda bamba da sanidade. A vida é gradualmente banalizada, passando a ser uma questão de pesos. As vidas das pessoas desconhecidas pelas vidas das pessoas do grupo, as vidas das pessoas do grupo pelas vidas da família... as vidas da família pela sua própria vida.
 

Filho aponta arma para o pai na dramática cena referida anteriormente.


Porém, com perdão do trocadilho, The Walking Dead não é um dead end (beco sem saída), pois também nos conta uma história de esperança nas virtudes da coletividade. Trata-se de uma ode à sociedade, com todos os seus defeitos, nos mostrando o quão indesejável é o seu oposto, o estado de natureza. Quer dizer, você se acha o antissocial porque não pode fumar sua maconha em paz? Então veja só o que é viver fora da sociedade, dê uma olhada no que o ser humano é capaz quando desnudado de leis e costumes: “O horror... O horror...”, suspira o coronel Walter Kurtz antes de morrer em Apocalypse Now (1979) – filme baseado no livro Coração das Trevas (1899), que trata do mesmo tema da imersão do homem civilizado em estado de natureza. Evidentemente que não estou menosprezando as mazelas da vida em sociedade. Contudo, se refletirmos profundamente, veremos que a maioria do que consideramos como “problemas sociais” são, na verdade, decorrentes de uma dissolução social, uma ausência de sociedade em meio à própria. Pobreza, violência, o embrutecimento das pessoas, tudo isso decorre de um longo processo de definhamento da sociedade, resultante da acirramento das desigualdades e do individualismo. Cada vez menos pão a dividir, cada vez mais motivos para desconfiar dos outros ou mesmo detestá-los. É aterrador pensar que, muito lentamente, o contrato social está se afrouxando e estamos retornando ao estado de natureza. Mas certamente teremos mais oportunidades para destrincharmos esse assunto. Voltemos à vaca fria.

Poderíamos dividir a HQ em dois atos políticos, tal como dividimos o presente artigo. O primeiro ato seria o da dissolução do contrato social e imersão no estado de natureza, que vai do início da infestação zumbi, passando pelas já referidas tragédias na prisão, até chegarmos a Alexandria, uma fictícia cidadezinha nas cercanias de Washington, projetada pelo governo para servir de abrigo às autoridades em caso de catástrofe. Nessa cidade, Rick vê a organização de uma comunidade de sobreviventes, sua divisão do trabalho, distribuição dos recursos, estabelecimento de normas e concebe a possibilidade de retorno à civilização. O grupo então deixa de estar apenas sobrevivendo mais um dia e passa a ambicionar a construção de uma nova sociedade. O segundo ato, então, iria desse ponto ao final da HQ.

Em nossa continuação, veremos que essa segunda fase da HQ será cada vez menos assombrada por zumbis e o terror psicológico de indivíduos à beira da insanidade, e cada vez mais por questões de coletividade, problemas derivados de conflitos entre comunidades, crises de autoridade, choques de concepções de sociedade, enfim, as dores do parto de uma nova civilização. Acompanharemos a saída do estado de natureza para um novo contrato social, da luta dos indivíduos às lutas entre comunidades, rumo a uma relativa harmonia social.

Continua!




Escrito por

Vítor Grola Castilho

Professor de história, bacharelado e licenciado pela FFLCH-USP

vitorgrell696@gmail.com


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