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THE WALKING DEAD E A FILOSOFIA POLÍTICA

(PARTE II)

Imersão Cultural | 17-01-2022 00:10 | Por: Vítor Grola Castilho
Na publicação anterior, vimos que os filósofos políticos modernos se deleitariam com o “épico de zumbis” de Robert Kirkman, se hoje vivessem, pois este narra seu próprio objeto de estudo! Primeiramente, acompanhamos o mergulho no estado de natureza, onde os indivíduos estão abandonados à própria sorte, na luta de todos contra todos, sem leis ou convenções para protegê-los. Depois que o grupo de nosso protagonista, Rick Grimes, encontra a comunidade de sobreviventes de Alexandria, a história toma outros rumos. A luta pela sobrevivência por mais um dia, enfim, é superada pela perspectiva de reconstrução da civilização. A ameaça zumbi e o tema da insanidade vão perdendo espaço para questões de coletividade, conflitos entre comunidades, crises de autoridade, choques de concepções de sociedade, as dores do parto de uma nova civilização. Acaba o primeiro ato, do contrato social ao estado de natureza. Entramos em uma fase ascendente:
 
Ato II: "We are NOT the walking dead", do estado de natureza de volta ao contrato social

Rick vislumbra Alexandria como embrião de um novo contrato social, mas, diante de uma administração fraca, é impelido pelas circunstâncias a algo que nunca quis, pela segurança de seu grupo e, principalmente, de seu filho, Carl. Um dos conflitos internos de nosso protagonista é que nunca quis ser líder, mas suas competências, únicas no grupo (até por ser egresso da polícia), fizeram com que as pessoas aceitassem ou mesmo desejassem sua liderança. Isso se deve à constatação de que ele poderia proteger o grupo, ou seja, cumprir com a função de manter o estado de natureza afastado. É como se sua autoridade emanasse um campo de força de civilidade em meio à selvageria.

Quando uma manada de zumbis se choca com Alexandria, o então líder da comunidade, Douglas Monroe, já abalado pela morte de sua esposa, endoida ao ver suas defesas desmoronando. Rick coordena a defesa da cidade enquanto Monroe, desesperado, se atira aos zumbis. Em seguida, outra comunidade chamada Hilltop é extorquida por Negan, tirânico líder da gangue dos Salvadores. Negan “oferece” proteção com seus brutamontes em troca de um imposto bastante salgado: metade dos proventos das comunidades protegidas. Na verdade, mantém um império com base no medo. Gregory, o entreguista líder de Hilltop, se curva a Negan e age como fantoche. Rick e seu grupo declaram guerra a Negan e, depois de derrotá-lo, Maggie, amiga de Rick que comandara a defesa de Hilltop, depõe Gregory e assume a liderança daquela comunidade.

Analisemos. Douglas e Gregory são exemplos de lideranças fracas, que não cumprem com seu papel. Douglas não mantém Alexandria segura e Gregory entrega os proventos de Hilltop à extorsão de Negan. Perdem o direito de liderar, pois não fazem jus aos poderes cedidos pela comunidade, ao passo que aqueles que assumem as rédeas e defendem as comunidades, tornando-as seguras e zelando por sua propriedade, são permitidos pelos habitantes a liderar: Rick e Maggie. Os filósofos políticos nos lembram que a autoridade emana do consentimento da comunidade, desde que a escolha de deixar o estado de natureza e aderir à sociedade coube, a princípio, aos indivíduos membros. É o contrato social.
 

As comunidades organizam uma feira, com atrações e trocas de produtos do trabalho. O comércio é sempre um sinal do florescimento da civilização, pois só existe onde há uma mínima estabilidade.


Por outro lado, temos a figura das tiranias ou quando o poder cedido a uma autoridade é usado de maneira abusiva e prejudicial à própria comunidade. A filosofia política de John Locke possui um pequeno dispositivo contra esse problema: o direito de revolução, ou quando a comunidade depõe o líder para restituir a segurança. Afinal de contas, manter a comunidade íntegra é o objetivo primeiro do contrato social. Se o líder passa a ser a própria ameaça, é como se reabrisse as porteiras do estado de natureza, voltando a valer o poder do mais forte sobre os fracos.

Negan lidera a comunidade Santuário com rígido sistema de pontuações e penalidades brutais contra infrações. Possui um harém onde as mulheres escolhidas são liberadas dos trabalhos na comunidade para servirem a seus caprichos. Dwight, cuja namorada é incorporada ao harém de Negan, ainda carrega em sua face a dolorosa marca das punições do Santuário. Ressentido, se torna um conspirador e ajuda Rick em segredo na guerra contra o tirano. O mesmo ocorre com Pamela Milton, líder da comunidade chamada Império, uma interessante alegoria da sociedade americana, marcada por desigualdades e sérias tensões sociais. A presidente almeja restituir a sociedade de classes, realocando todos às respectivas classes sociais de antes do apocalipse zumbi. Utilizando ostensivamente forças armadas contra a população e despertando a antipatia dos desprivilegiados pelo seu sistema de classes, Pamela é traída pelo comandante das tropas, Mercer, que inicia uma insurreição.

No segundo caso, contudo, Rick se opõe. Apesar de condenar o regime de Pamela, colabora com a supressão da insurreição. Diferente do que um líder ambicioso e inescrupuloso como Negan faria – que é o que os EUA fazem, diga-se de passagem –, se aproveitando da situação de instabilidade interna para invadir e dominar aquela comunidade, Rick opta pela diplomacia como o caminho para restituir a civilização, evitando um grande morticínio. Nos lembramos de Immanuel Kant (1724–1804) em À Paz Perpétua (1795). Ora, se os indivíduos formam sociedades, não significa que o estado de natureza deixou de existir. Para Kant, o que ocorre é que, após os contratos sociais, temos um estado de natureza entre sociedades. Rivalidades entre comunidades, que se ameaçam constantemente com guerras, sabotagens, as mais fortes submetendo as mais fracas, tal como o Santuário de Negan sobre Hilltop. Para o filósofo, o direito internacional seria a forma de balancear e normatizar as relações entre nações, extinguindo, por fim, o estado de natureza. Algo como um contrato social entre nações.
 

Na imagem, a tortura com o ferro de passar usada por Negan para punir seus seguidores. "Com as baionetas, senhor, pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre as mesmas". A frase, erroneamente atribuída a estadistas como Otto von Bismarck (1815–1898) e Napoleão Bonaparte (1769–1821), de fato pertence a Charles-Maurice de Talleyrand-Perigórd (1754–1838), Ministro dos Negócios Exteriores francês em diversas ocasiões. O Ministro alertava seu imperador Bonaparte a respeito dos limites da autoridade. Não há regime que se sustente apenas barbarizando seus cidadãos. Se um regime perdura, é porque ou provê seu povo o suficiente para que este se acomode, ou não atenta o bastante contra seus direitos de modo a ser-lhe intolerável: “tá ruim, mas tá bom”. Como Locke dizia, o consenso a respeito da autoridade pode ser explícito ou tácito, em outras palavras, com o povo clamando pelo reinado ou simplesmente deixando reinar.


Na carta de agradecimentos de 2019, depois do fim da HQ, Kirkman revela que, a princípio, o final seria trágico, com a derrota da jovem civilização parida pelo bravo esforço de Rick Grimes e seus amigos. Os zumbis, enfim, extinguiriam a humanidade. Curiosamente, o autor reputa a mudança de tom da conclusão ao seu amadurecimento, com o passar dos anos. Mesmo que The Walking Dead não sirva para te encher de esperança na civilização, certamente conseguirá te assombrar com o que é sua ausência.

Jean-Jacques Rousseau (1712–1778), grande crítico da civilização, defendia que os homens nascem bons por natureza, sendo que a sociedade os corromperia. Antes que seus detratores pensem em usar The Walking Dead como demonstração contra sua filosofia, devemos nos lembrar que Rousseau falava de um homem ainda puramente selvagem, alguém como um Mogli ou um Tarzan, sem as impregnações da sociedade, o que não consta na HQ, desde que todos os personagens nasceram e foram formados na civilização extinta pelo apocalipse zumbi. Rousseau poderia contra-argumentar que esses homens e mulheres já estariam corrompidos e que, portanto, a barbárie aconteceria de qualquer forma. O grupo chamado de “sussurrantes”, liderado por uma mulher autointitulada “alfa”, usa peles de zumbis para se misturar aos mortos-vivos e habita florestas, como um bando de animais. Os sussurrantes pretendem renunciar às artificialidades da civilização em busca de uma vida plena, unidos à natureza. Mas essa animalesca vida plena também significa matar o primeiro que considerem como ameaça, abandonar companheiros mais fracos à morte ou deixar o desejo sexual fluir como mera necessidade biológica – leia-se a liberação do estupro. Enfim, um “estilo de vida” muito pouco recomendável...

Quando Rick, em seus discursos, proclama “we are the walking dead” e “we are not the walking dead”, está se referindo à entrada e saída dessa condição de animalidade. Poderíamos ir mais longe e pensar o próprio zumbi como alegoria do estado de natureza. Em determinado momento da história, Eugene Porter, o professor escolar de ciências que, malandramente, inventou a bravata de ser um cientista do governo que sabia a causa de tudo só para ser protegido como a galinha dos ovos de ouro do grupo, se refere aos zumbis como “forças da natureza”, movidos pelo mais puro instinto: a necessidade de se alimentar. A alegoria fica mais clara quando percebemos como os zumbis perdem centralidade quanto mais a história volta à civilização. No último capítulo, os zumbis aparecem acorrentados, usados para fazer dinheiro em uma espécie de show de aberrações. Um desses zumbis de circo escapa e Carl o mata... sendo processado por depredação de propriedade! Jocosamente, vemos como a natureza é domesticada pelo trabalho do homem, transformada em propriedade. Uma alegoria da filosofia política lockeana seria aqui fechada com chave de ouro.
 

Acusador se defende contra réu que matou seu zumbi de estimação... O caso vai parar na Suprema Corte, onde, entretanto, vemos o réu ganhando a causa.


Otimismo tão raro nos atuais produtos da indústria cultural, além de restituir dignidade à civilização, The Walking Dead é um alento de pragmatismo em meio a tanta paixão e irracionalidade no tratamento da política. Depois da guerra contra a gangue dos Salvadores, Rick poupa a vida do terrível Negan e o encarcera. No Império, quando o golpe contra Pamela se inicia, Rick tira a vida de um dos conspiradores com as próprias mãos – Dwight, lembram-se dele? Incoerência? Traição? De jeito nenhum, pois o critério não é mais a ameaça que o outro representa ao indivíduo, mas ao conjunto do contrato social. Embora fosse o maior crápula do universo, Negan estava derrotado, era uma ameaça neutralizada. Dwight, mesmo que não possuísse a maldade de Negan e que tivesse se tornado companheiro de Rick, representava um risco muito maior, ou seja, desestabilizar toda a comunidade do Império, jogando-a em guerra civil, abrindo as defesas para os zumbis, em outras palavras, a volta do estado de natureza. Rick deixa de ser mais um entre muitos sobreviventes e se torna o poder executivo em pessoa, pois recebeu esse direito do consentimento de todas as comunidades que defendeu. Sua responsabilidade não é mais para com a própria vida, mas pela vida, propriedade, enfim, a liberdade de todos os demais.

Tal como o monarca representado no frontispício de Leviatã, Rick tem todo o contrato social dentro de seu corpo. Ele não queria, mas se tornou estadista pela necessidade do grupo, pois foi amaldiçoado, ou abençoado, dependendo da perspectiva, com as competências para liderar. Rick Grimes é uma lição de filosofia política em dois sentidos. Primeiro, a vida de um estadista não lhe pertence, mas sim à sua comunidade ou nação. Segundo, recupera a imagem do poder pessoal e autoritário legítimo, distinguindo-o da tirania. Por vezes, o excesso de deliberação e interesses difusos pode castrar o poder de execução ou torná-lo moroso, o que, em momento de urgência, pode ser mortal para o próprio corpo social. Em nossos dias, muito se melindra por aquela miragem chamada democracia. Mas, perigosamente, perde-se de vista a questão da eficácia do poder, com a sua diluição excessiva e a ausência de lideranças fortes capazes de direcionar interesses difusos em um único projeto. Ocorre então um efeito centrífuga, em que cada parte puxa seus interesses para seu lado. Enfim... o contrato social se rompe. Ora, se Rick sucumbe às suas recusas pessoais ou cede aos caprichos de outros membros, que são incapazes de liderar, o grupo se esfacelaria em brigas e o desastre seria certo. Deixo o pensamento em vossas mãos...
 

Rick pacifica os ânimos e reunifica a comunidade Império com seu discurso final, momento apoteótico do retorno à civilização: “Não somos os mortos-vivos!”





Escrito por

Vítor Grola Castilho

Professor de história, bacharelado e licenciado pela FFLCH-USP

vitorgrell696@gmail.com


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